Ó PAI Ó

agosto 23, 2007 às 7:59 pm | Publicado em Filmes | 5 Comentários

Davi Cruz – Nota 9,0

Talvez se talvez fosse visto num outro momento, o filme Ó PAI Ó não teria me chamado a atenção. Porém, após alguns anos morando no nordeste e tendo contato com grande parte da cultura baiana, simplesmente adorei o filme.

Inspirado numa peça teatral encenada pelo Bando de Teatro do Olodum nos anos 1990, “Ó Pai, Ó” utilizado o sotaque e a música baiana, a partir do ambiente do bairro histórico do Pelourinho, em Salvador, para desenvolver um crônica urbana bastante atual, que pode tanto chocar quanto divertir.

Começando como comédia musical, o filme da diretora Monique Gardenberg (de “Benjamim”) conta a história de Roque (Lázaro Ramos), aspirante a cantor que, como a maioria dos moradores do Pelourinho – e do Brasil – dão duro para viver, sem carteira assinada.

Outros personagens do lugar são a dona de bar Neuzão (Tânia Tôko), a imigrante desiludida Psilene (Dira Paes), o motorista de táxi Reginaldo (Érico Brás), dividido entre a mulher grávida (Valdinéia Soriano) e o amante, o travesti Yolanda (Lyu Arisson). Vários outros travestis, camelôs e traficantes fazem parte da história. Destaque para a irmã de Psilene, que ganha a vida realizando abortos e, talvez movida pelo sentimento da culpa, adota diversas crianças – mesmo com todas as dificuldades do dia a dia, cria sete “filhos”.

Todos os personagens vivem no mesmo prédio, de propriedade da rigorosa evangélica dona Joana (Luciana Souza). Sua principal diversão, além do culto evangélico, é palpitar sobre a vida dos outros e cortar a água dos demais moradores do prédio – uma espécie de punição pelos pecados dos mesmos. Por outro lado, ela recusa-se a aceitar a realidade: seu marido a abandonou (mas ela insiste que vai voltar) e seus filhos Cosme (Vinicius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes), dizem que vão ao culto mas passam o dia na rua ocupam-se com trambiques e até pequenos furtos na feira.

Várias pequenas histórias são mostradas, sendo que todas acabam convergindo para o mesmo local e para um triste evento ao final do filme.

Wagner Moura, apesar de ser um ator muito talentoso, aqui parece que errou um pouco a mão, pois seu personagem está muito caricato. Já Lázaro Ramos está bastante à vontade no papel de Roque. Apenas achei que o ator é um pouco desafinado – nem o uso do ProTools ajudou muito. Porém isso é apenas um detalhe, diante da simpatia do personagem e seu sotaque divertidíssimo.

Enfim, Ó PAI Ó é um filme que diverte mas que também nos faz pensar um pouco, pois mostra o contraste entre a tragédia social, representada principalmente pela pobreza e violência do local, e a alienação do carnaval. Isso fica bem estampado numa cena em especial, quando a câmera parte da imagem de dois corpos jogados no chão, cercados por algumas pessoas, e segue – sem cortes – até a avenida onde os blocos, lotados de turistas europeus, fazem a festa. Logo depois, temos imagens de turistas loiros se divertindo, enquanto o aleijado segue o bloco recolhendo latas de alumínio – e aparentemente feliz com aquela “oportunidade”.

Talvez falte ao projeto um pouco mais de objetividade (algumas vezes a história se dispersa demais) ou então um posição mais clara sobre determinados assuntos citados. Mas só a atuação de Lázaro Ramos e sequencias como as que acabo de citar, já valem a pena.

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5 Comentários »

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  1. Ó Pai,ó é um filme de Salvador apenas para Brasileiros. Duvido muito que esse filme chame atenção lá fora, tirando pelas cenas de sexo. Inclusiv, se chamasse atenção devido a esses momentos carnais, diria que quem gostou do filme por isso deve ser considerado um tolo, pois o sexo é retratado de uma forma tão natural do ser humano como é mostrado no filme Cidade baixa (brilhantíssimo filme, alias).
    A narração parece um pouco confusa em alguns momentos devido às inumeras histórias apresentadas, mas num geral o filme é excelente e merece a atenção de quem o aprecia.
    Sem contar que a cena do discurso anti-racismo de Roque é de encher os olhos de lágrimas de um misto de emoção e revolta. Fantástico.

    Fica aqui minha dica: Cidade Baixa. Já viu?

  2. Picelli, obrigado pelo comentário!
    Assisti CIDADE BAIXA e gostei muito. Porém achei bem menos criativo do que O PAI Ó.
    Mesmo assim, é um bom filme.

  3. Oi,
    bem, não conheço o filme (na verdade tô bem por fora, pra variar um pouco). Pelo menos por parte do elenco parece ser bom, Lazaro e Wagner são ótimos. Engraçado que no cinema brasileiro a história é sempre bem parecida… apesar da qualidade estar melhorando a cada dia eu ainda tô na onda de filmes norte americanos (aquelas coisas mais fútil, se é que me entende?) e não tive a oportunidade de ver muitos filmes brasileiro… mais o que me parece é que eles sempre retratam coisas do cotidiano, tem aquela coisa de mostrar a realidade. Isso pode ser um ponto até positivo, porém é muita “tragedia social” apesar de ser real. Eu ultimamente ando preferindo umas coisas fictícias. Mesmo assim não deixo de adorar suas dicas!
    Beijos e aparece no blog depois.
    ;*

  4. ops

  5. Assisti e sinto que perdi meu tempo. Se o filme CIDADE BAIXA é menos criativo do que Ó PAÍ Ó deve ser uma coisa horrorosa…


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