CAPITU

dezembro 12, 2008 às 11:35 am | Publicado em EXTRA | 10 Comentários

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Não sou hipócrita para vir até aqui, no meu blog, declarar que estou “amando” CAPITU e, assim, tentar parecer mais intelectualizado do que realmente sou. 

A  nova microssérie da REDE GLOBO segue os mesmo moldes de A PEDRA DO REINO e HOJE É DIA DE MARIA, seja pelas suas qualidades (primor técnico impressionante, criatividade elevada à enésima potência), seja pelos seus “defeitos” (entre aspas mesmos), já que estão anos luz, em termos de linguagem, à frente do que o público está acostumado a ver e, portanto, acabam gerando um certo estranhamento (ou até repúdio) por parte do público.

Não vou comentar sobre a história, uma vez que DOM CASMURRO já está por aí a mais de 100 anos, me limitando a expressar a minha opinião, estritamente pessoal (que, afinal, é a finalidade de um blog) sobre a série.

capitu1_blogO diretor do projeto, Luis Fernando Carvalho é, sem sombra de dúvidas, um gênio que a REDE GLOBO sabe preservar e “mimar” muito bem. Ele é considerado como uma espécie de “selo de qualidade”, já que seus trabalhos visam mais os prêmios e um upgrade na imagem da GLOBO do que um retorno financeiro, propriamente dito. Mais ou menos como as montadoras fazem, ao lançarem carros caros e tecnologicamente avançados (Stilo Abarth, na FIAT e Gol Turbo, na VW, para citar exemplos conhecidos) que vendem poucos, não dão lucro, mas são bons para a imagem da marca, nos fazendo sonhar e consumir os produtos mais populares.

Porém, acho que ele o diretor peca (relembrando: para o meu gosto pessoal) ao insistir na linguagem teatral, já mais do que batida nesse tipo de projeto. Só faltou a história se passar no sertão nordestino… Sempre que alguém quer “inovar” na TV (e até no cinema), recorre ao “velho truque da linguagem teatral” ou ao “velho truque de levar a história para o sertão”, ou até aos dois juntos.

Lembro que L. F. Carvalho consegue se sair muitíssimo bem quando trabalha com formatos mais tradicionais como, por exemplo, RENASCER, novela de maior sucesso dos anos 90, numa época em que ainda era possível assistir as novelas exibidas. Essa,  em especial, além da história e dos personagens marcantes, foi inovadora em diversos aspectos, como no uso da computação gráfica na sua abertura, os efeitos especiais na primeira fase e o uso de película para a filmagem de algumas cenas.

capitu-audiencia-436Voltando a CAPITU, acredito que, no final das contas, a produção acaba representando um desperdício de talento e de recursos, já que teria tudo para ser uma produção inesquecível, mas vai acabar sendo mais uma “série fantástica” que pouca gente assistiu.

A abertura e as transições dos capítulos são maravilhosas e modernas (tirando a narração das transições, que não precisavam existir) e chama a atenção o uso de uma trilha sonora fantástica e também moderna, ao misturar o clássico ao contemporâneo. No capítulo de ontem (que não assisti todo), por exemplo, fiquei de queixo caído ao ouvir IRON MAN do BLACK SABATH em uma versão ao piano. Simplesmente foda!

Não sou defensor do popularesco, pelo contrário. Não acho que a série deveria constar com o Faustão na narração e nem com pornografia, para atrair público. Mas fico imaginando tudo o que citei como méritos da série (e o que não citei, como a linda fotografia de Adrian Teijido, parceiro habitual do diretor e profissional experiente em campanhas publicitários) sendo utilizado em uma linguagem mais cinematográfica (sim, pensei em algo mas “hollywoodiano” mesmo… e daí?). A primeira coisa que me vem a cabeça seria algo mais próximo à estética de Tim Burton, que tenho certeza que se encaixaria muito bem à história. Seria impressionante e perfeitamente “realizável” com os recursos disponibilizados.

Temos, por exemplo, belíssimas e tocantes cenas, como aquelas que mostram Capitu e Bentinho desenhando um cenário com giz, mas também, por outro lado, temos cenas exageradas que não combinam em nada com isso. Para que, pelo amor de Deus, alguns personagens com maquiagem teatral? Fica claro, desde o princípio, que estamos acompanhando à “versão Bentinho” dos fatos, ou seja, aquilo que ele acha que aconteceu, sendo verdade ou não. Então, não vejo a necessidade de explicitar tanto esse tom de fantasia e exagero no visual.

De qualquer forma, ainda acho elogiável, por parte da REDE GLOBO, a disposição de investir R$ 5 milhões (R$ 1 milhão por episódio, valor bastante razoável) em algo tão experimental. O resultado impressiona principalmente quem gosta de detalhes técnicos (como por exemplo, a lente especial, cheia de água, criado pelo diretor para ilustrar o ponto de vista de Bentinho), mas frustra, como já disse antes,  justamente por ainda não conseguir romper a barreira que separa as obras experimentais das obras de sucesso.  Até porque, queira ou não queira, o cinema (e a TV) fazem parte de um grande negócio e precisam de resultados para garantir a sua continuidade.  Caso contrário, acabam sendo exilados aos horários da madrugada, como é o caso de CAPITU, sendo mais comentados do que realmente assistidos. Por isso, coloquei uma nota 7 para a série, mesmo que ela ainda não tenha acabado.

10 Comentários »

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  1. eu vi Capitu e realmente gostei muito do piloto. Talvez por ter impressionado pelos cenários e tudo mais. A única coisa q me incomoda na série são os monológos de Dom Casmurro;

    Que apesar de passar MUITO drama do personagem, dificulta completamente o meu entendimento da série, mas vejo isso como pessoal e não um problema da série.

    Gostei muito, e Capitu é MUITO melhor que A PEDRA DO REINO.
    *
    [OFF]
    Não conhecia teu blog cara, eu tenho um tambem chamado OseriesTv (http://oseriestv.brogui.com) e ia te perguntar se não gostaria de fazer um “troca de links” no blogroll…
    Se estiver interessado, dá um toque que coloco seu blog lá nos parceiros

  2. Eu estou amando Capitu, de verdade. Eu fico sentada, boquiaberta com cada detalhezinho, maravilhada com cada inovação. Mas gostei da sua review. Só queria corrigir o nome do diretor. É Luis Fernando Carvalho.

  3. Valeu Thais, já está corrigigo! Não sei da onde tirei Guimarães… rsss

  4. Davi,

    Não tenho o costume de assistir a rede globo e não vou assitir, ou não assisti (não sei se já acabou) capitu mas, seu comentário foi foda (no bo sentido).

  5. Assino embaixo da sua análise!
    O conceito inovar perde o sentido quando se repete. Além de incluir um certo ranso intelectualóide-elitista.
    Amo esta história. Mas até hoje, não consegui ver uma adaptção seja para teatro, seja para tv ou cinema, que faça jus à obra. Talvez certas pérolas devam ser mantidas apenas nas páginas dos livros.

    Ak – Amei o episódio 10 de Fringe. Realmente nota 10!

    Bjs

  6. Uaaaaaaauuuuu!!! Quanta coisa ótima aqui!
    Fiquei fula por ter perdido a maioria dos capitulos de capitu! Li o livro, e pelo pouco que vi, tinha muita coisa inovando e destoando… Mas sempre vale a pena! Adorei o post!
    assim que eu gosto!
    bjos

  7. Grande Davi!

    Depois de ler esse post, sinceramente, fiquei curioso com essa série e, por coincidência estava ela disponível para download no blog de séries. Baixei e assisti os cinco capítulos. Confesso que achei fantástico. Achei a linguagem teatral perfeita, talvez por não ter assistido as outras que você citou, não achei batida.
    Já me impressionou logo de cara, nas cenas iniciais do primeiro capítulo, a trilha sonora, nada mais nada menos que Jimi Hendrix e, depois Sex Pistols, Iron Man no piano…
    Também gostei muito dos atores e conseqüentemente dos personagens. Gostei em especial de Dom Casmurro e sua narrativa.
    Realmente não parece um programa da rede globo e concordo que com você quando diz: não dão lucro, mas são bons para a imagem da marca, nos fazendo sonhar e consumir os produtos mais populares.
    Se fosse eu a dar a nota, ela seria nove.
    Enfim, gostei muito, ainda mais, por ter atores desconhecidos, ao menos para mim.

    Abraço!!!

  8. Davi, não entendo o não gostar de muitas pessoas da adaptação teatral de Dom Casmurro feita pelo LF Carvalho. Pergunto-me: será que se fosse num palco italiano, lá no teatro, estaria tudo bem?

    O irônico é que quase todos os que gostam e se espantam de gostar de Capitu é justamente porque deram de cara com a teatralidade ao invés de uma adaptação televisiva clássica.

    Mas a questão que você apontou é: ele esta sendo repetitivo? Nâo acho. Mesmo fazendo pela terceira vez algo over (leia-se teatral) ele não se repetiu na intensidade.

    Se em Hoje é Dia ele foi ameno e musical e em A Pedra ele foi minimalista e enigmático, em Capitu ele nos deu um terceiro tom, a de uma ópera bufa, que ri de si mesma, para valorizar a tragédia de uma vida equivocada.

    Não dá para culpar o estilo de um autor. Quase todos os autores/artistas fazem a mesma obra durante a vida inteira, mudando apenas o tema. O importante é buscar uma variação naquilo que se sabe fazer ou só se sabe fazer.

    Para até me insentar do meu lado que gosta do que o LF Carvalho faz tento imaginar como seria a adaptação de Dom Casmurro por outros. O que faria Wolf Maia? E Daniel Filho? E o Jayme Monjardim, que sucederá com Maysa? E você imaginou Tim Burton, outro maluco que tem a estética como base, assim como o LF Carvalho.

    Continuando nas conjecturas dá até para imaginar como fariam diretores de teatros de fato com uma câmera na mão. José Celso Martinez Corrêa provavelmente faria algo gigantesco e mostraria os peitos da Capitu, já Antunes Filho talvez fisesse algo cru e denso e muito mais sombrio.

    Eu me espantaria se o LF Carvalho desviasse do seu estilo e fizesse algo palatável. Assim como Dom Casmurro, Capitu, não é obra de uma única leitura. É preciso voltar para perceber detalhes não vistos. Numa retomada os supostos excessos podem se tornar coerentes com o geral. Eu tambem terei que rever coisas que me causaram estranhamento, sobretudo o grande volume de informações por minuto de cena.

    O que parece pesar mesmo para o LF Carvalho é que ele mexeu com o Machado e uma de suas obras primas. E ai a torcida se dividiu. Mas arrisco dizer que se ele tivesse adaptado, dessa mesma maneira, a Mão e a Luva ele seria conclamado um gênio por todos.

  9. 1 – gosto é gosto, não pode-se discutir
    2 – não é tão inovador em relação ás outras séries do diretor
    3 – é anos-luz a frente do público brasileiro
    4 – é para ganhar prêmios e valorizar a marca sim, mas pelo menos podemos ver algo interessante, pior se fosse mais uma dessas séries cheias de nudez e vazias de conteúdo só pra dar audiência
    5 – Adaptação não é necessáriamente justa com a obra original, e nem tem como ser, pois são mídias distintas
    resumindo, ganha a “marca” globo e quem gosta de ver algo diferente e interessante, e principalmente valorizando a cultura brasileira (embora não tenha ainda conseguido torná-la popular)

  10. Ótimo, Paulo e Filipe!
    Acho que assim que se faz um país melhor. Sério, sem hipocrisia: vocês não concordaram com o meu ponto de vista e colocaram o de vocês, com conteúdo e jamais levando a coisa para o lado pessoal. Ou seja, não concordaram com a minha opinião, mas em nenhum momento misturaram a minha “opinião” com a minha “pessoa”.

    Parabéns!


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